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Sobre rever crenças antigas

por Dani Aquino \




O último final de semana, pra mim, foi marcado por momentos de celebração da vida. Michel fez 40 anos. E isso me fez lembrar de muitos momentos e refletir sobre aniversários, considerando que cada texto desse blog me fala sobre os 40. Ou, sobre a maturidade de viver.


Quando eu era criança, o aniversário ocupavaum lugar quase óbvio na vida.Ele é esperado. Antecipado. Contado, a cada brigadeiro enrolado. Um momento de reunião (mas esse significado ainda não era claro pramim). Reunião de primos, amigos, tios, avó. Momento de ficar mais velha, crescer.

Existe um entendimento simples: crescer é algo bom, desejável, comemorável. O tempo avança e isso, por si só, já é motivo de celebração.

Em algum momento, essa lógica começou a mudar.


Na adolescência e na vida adulta, o significado das datas, pra mim foi se transformando. Não porque deixaram de ser importantes, mas porque passaram a carregar outras camadas. Expectativas externas, convenções sociais, formatos prontos. O que antes era espontâneo começou a vir acompanhado de uma ideia de obrigação: comemorar porque é o que se faz, reunir porque é o esperado, marcar presença porque a data pede.


E nem sempre isso combina com a forma como estamos vivendo.


Durante muito tempo, eu não fiz questão de comemorar aniversários. Nem os meus, nem outras datas consideradas especiais, como Natal ou Páscoa. Não por desinteresse pelas pessoas, nem por uma postura crítica em relação às celebrações, mas porque, aos poucos, essas datas deixaram de dialogar com o sentido que eu buscava para os encontros. Estavam ligadas a crença de que comemorar aniversário (e não só aniversários) era uma obrigação social.


A data parecia maior do que a experiência. A forma parecia mais importante do que o conteúdo. E isso não era uma ausência de afeto.Era uma crença em funcionamento.


A crença de que, se não há verdade no gesto, ele não precisa ser repetido. A crença de que encontros só fazem sentido quando são escolhidos, não quando são impostos por um calendário. A crença de que estar junto precisa ser consequência de vínculo, não de convenção.


Por muito tempo, isso organizou minhas escolhas. E funcionou.


Mas aí, o tempo, o velho e bom amigo tempo, me chamou a atenção para essa crença que antes era uma “obrigação social”. Nos últimos dois anos, (38 e 39, quase 40), essa data passou a ser uma escolha. Uma escolha simbólica. Uma possibilidade. A possibilidade de reunir pessoas que fazem sentido na minha vida. Pessoas que atravessam o cotidiano comigo, que contribuem para quem eu sou, que ampliam minha forma de ver o mundo, que me desenvolvem.


Não era sobre celebrar mais um ano de vida. Era sobre reconhecer presenças.


O aniversário deixou de ser um ponto central e passou a ser um pretexto. Um motivo simples para sentar junto, conversar, compartilhar tempo. O valor não estava na data, mas no critério de quem estaria ali. Não era um evento. Era um encontro.


Essa experiência não anulou crenças anteriores, mas as colocou em perspectiva. Mostrou que algumas ideias não precisam ser fixas para serem válidas. Que uma crença pode servir por um tempo e, depois, pedir revisão, sem que isso signifique contradição ou incoerência.


Agora, perto dos 40, isso fica ainda mais claro. Não existe uma forma correta de comemorar. Nem uma obrigação em transformar datas em marcos públicos. O que faz sentido hoje pode não fazer amanhã. E insistir em rituais apenas para manter uma coerência externa costuma gerar mais ruído do que pertencimento.


Talvez no meu aniversário de 40 anos eu reúna essas mesmas pessoas.Talvez não.


E essa possibilidade de não repetir é, por si só, um sinal de maturidade.

Rever crenças antigas não é sobre abandonar tudo o que ficou para trás. É sobre entender que a vida muda de ritmo, de demandas, de prioridades. O que organizava nossas escolhas aos 20 ou aos 30 pode não organizar mais aos 40. E tudo bem. Crescer também é aprender a revisar.


Há uma diferença importante entre tradição e automatismo. A tradição carrega sentido. O automatismo apenas se repete. Quando a gente revisa crenças, não está rejeitando o passado, mas tentando manter a vida alinhada com o presente.


A maturidade não está em criar novos rituais para cada fase. Está em saber quando um ritual ainda sustenta, e quando ele pode ser deixado de lado sem culpa, sem justificativa longa, sem necessidade de validação externa.


Talvez o maior aprendizado não seja aprender a comemorar mais ou menos. Mas aprender a escolher com quem, quando e por quê.


E isso vale para aniversários, mas não é sobre aniversários. Isso vale para relações, decisões, compromissos e expectativas.


Rever crenças antigas é, no fundo, um exercício de honestidade. Com o tempo.


Com as escolhas. E consigo mesma.

 
 
 

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