Sobre como escolho envelhecer
por Dani Aquino

A Xuxa tem 63 anos.
Nos últimos dias, vi muita gente falando sobre a roupa que Xuxa escolheu para subir ao palco. Sobre o quanto mostrava, sobre o corpo dela, sobre o que ficaria melhor e, inevitavelmente, sobre a idade.
E talvez essa seja a informação mais importante dessa história, não porque determine o que ela deveria vestir, mas justamente porque parece que, para muita gente, determina.
A repercussão me fez pensar sobre como ainda temos dificuldade em lidar com o envelhecimento, especialmente quando ele não acontece da maneira que esperamos. Existe uma espécie de roteiro silencioso sobre envelhecer.
Com o passar dos anos, espera-se que a gente vá diminuindo um pouco. A roupa fica mais comportada. O cabelo talvez deva ficar mais discreto. O corpo precisa aparecer menos. Certos comportamentos começam a ser considerados inadequados. E aquilo que aos 30 seria chamado de ousadia, aos 60 pode ganhar outro nome, “falta de noção”, como se maturidade e apagamento fossem quase sinônimos.
Podemos gostar ou não de uma roupa, de um show, de uma escolha estética. O problema começa quando a idade entra como argumento para definir aquilo que alguém pode ou não fazer. O medo de envelhecer, ou o preconceito, vem junto com a frase: “Para a idade dela…”
É uma frase pequena, mas que carrega um mundo inteiro de expectativas, talvez porque o envelhecimento ainda nos assuste.
Vivemos uma contradição curiosa: queremos viver muito, mas não queremos parecer que vivemos muito.
Celebramos a longevidade enquanto tentamos apagar praticamente todos os sinais dela. Rugas precisam ser suavizadas. Cabelos brancos, escondidos. Corpos precisam continuar respondendo aos padrões de décadas anteriores. E quem decide simplesmente existir dentro da própria idade, sem pedir desculpas por ela, frequentemente causa algum desconforto, principalmente as mulheres.
Existe algo particularmente cruel na forma como aprendemos a observar o envelhecimento feminino. Durante muitos anos, somos incentivadas a sermos bonitas, desejáveis, interessantes. Depois, em algum momento que ninguém sabe exatamente quando acontece, espera-se que saibamos sair de cena com elegância.
Mas eu tenho pensado que talvez envelhecer bem não tenha nada a ver com desaparecer aos poucos, e mais do que isso, também não significa fingir que o tempo não passou. Essa diferença importa.
Não quero chegar aos 60 tentando desesperadamente parecer ter 30. Mas também não quero chegar aos 60 acreditando que existe uma lista de coisas que já não me pertencem. Quero poder escolher, escolher o cabelo, a roupa, a viagem, o amor, a dança, o silêncio. Escolher o quero mostrar e o que guardar. Inclusive escolher mudar de ideia sobre tudo isso.
Essa é uma das liberdades mais bonitas que o tempo pode trazer, parar de organizar a própria vida em função do olhar de quem está assistindo. Aos 20, talvez eu tivesse muito mais preocupação em saber se estava agradando.
Hoje, entendo que envelhecer também pode ser aprender a sustentar algumas escolhas sem precisar que todo mundo concorde com elas. E isso não significa ignorar o tempo. O corpo muda. A disposição muda. Algumas prioridades mudam. Há perdas, limites e renúncias que fazem parte da vida. Romantizar o envelhecimento seria tão injusto quanto tratá-lo como uma tragédia.
Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer que estamos envelhecendo e acreditar que, por isso, precisamos ocupar menos espaço. E isso foi o que mais me chamou atenção em toda a discussão sobre Xuxa. Não era apenas uma roupa.
Era uma quantidade de pessoas dispostas a estabelecer como uma mulher de 63 anos deveria se apresentar ao mundo. Uma quantidade de pessoas negando o envelhecimento e expondo suas próprias expectativas e frustrações, usando o corpo de outra mulher.
Era a internet que idealiza a perfeição e nega constantemente a realidade. Era a internet que acha que julgamento pessoal pode virar opinião. Era a internet que ainda não entendeu que todo conteúdo não é uma vitrine para críticas.
Inevitavelmente pensei em mim e em como quero chegar aos 50, aos 60, aos 70. Não sei que roupa vou querer usar. Não sei se vou pintar o cabelo ou deixá-lo branco. Não sei se vou querer uma vida cheia de gente ou uma casa cada vez mais silenciosa. Mas espero continuar me reconhecendo nas minhas escolhas.
Porque, se existe um privilégio em envelhecer, talvez seja justamente ter vivido tempo suficiente para descobrir que não precisamos passar a vida inteira tentando caber na expectativa dos outros.
Hoje, eu não quero aprender a parecer mais jovem, quero aprender a envelhecer sem me abandonar, e, pensando bem, talvez seja exatamente assim que eu escolho envelhecer.
Dito isso, aos quase 40, voltei pro ballet.
E a Xuxa? Ah, a Xuxa, ela tem 63 anos.



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