Sobre deixar de agradar
- Sobreviver aos 40
- 26 de jul.
- 4 min de leitura
Por Dani Aquino

Tenho falado muito sobre isso na terapia. Sobre a preocupação em agradar, o medo de decepcionar. Sobre essa necessidade, às vezes muito discreta, de perceber no outro algum sinal de aprovação antes de confiar completamente nas próprias escolhas.
E talvez o mais difícil seja admitir que isso nem sempre aparece de forma óbvia.
Eu não passo a vida fazendo tudo o que não quero, nem digo sim para qualquer coisa, não aceito todos os convites ou abandono minhas vontades para atender às vontades dos outros.
O ponto é que as situações relacionadas a agradar, muitas vezes, são bem mais sutis, como ajustar uma opinião para não criar desconforto, pensar demais antes de falar ou tentar antecipar como o outro vai receber uma decisão. Tentar diminuir um pouco a própria presença para que todo mundo continue se sentindo bem. Muitas vezes, é tentar caber.
Caber em um grupo, em uma relação, em um ambiente de trabalho, em uma expectativa. Caber na ideia que alguém construiu sobre quem somos.
Durante muito tempo, eu acho que confundi essa ADAPTAÇÃO com CUIDADO.
Apesar de que, em alguma medida, ela também pode ser, pois conviver exige consideração, escuta, flexibilidade e a capacidade de perceber que não estamos sozinhas no mundo.
O problema começa quando fazer o outro se sentir bem se transforma em uma responsabilidade permanente ou quando a tranquilidade do ambiente parece depender da nossa capacidade de não incomodar. Quando discordar provoca culpa. Quando uma escolha só parece segura depois de ser validada por alguém. É nesse lugar que agradar deixa de ser gentileza e começa a se misturar com insegurança.
A maturidade tem me mostrado uma verdade pouco confortável, somos pessoas decepcionantes. Não no sentido de sermos ruins, negligentes ou indiferentes, mas porque somos humanas.
Na terapia, o rumo da conversa foi esse. Nós tentamos caber para não decepcionar, mas e o outro? Nesse momento ficou claro que a nossa insegurança fala muito mais alto, pois aparentemente é muito pior decepcionar do que ser decepcionado.
Em algum momento, vamos frustrar uma expectativa, escolher de uma forma que alguém não escolheria e até mesmo dizer algo que o outro não queria ouvir. Vamos mudar de ideia, estabelecer limites, priorizar caminhos diferentes. Mesmo quando agimos com respeito, alguém pode se decepcionar.
E talvez uma parte importante de amadurecer seja aceitar que nem toda decepção significa que fizemos algo errado. E essa, ainda, não é uma compreensão totalmente tranquila para mim.
Eu ainda me preocupo, inda reviso conversas mentalmente, ainda penso se poderia ter dito de outro jeito, escolhido de outra forma ou evitado algum incômodo. Mas, aos poucos, percebo que essa preocupação não precisa comandar todas as decisões.
Porque existe uma diferença entre considerar o outro e precisar da aprovação dele para sustentar quem somos. A primeira coisa faz parte das relações. A segunda nos mantém sempre um pouco do lado de fora de nós mesmas.
Talvez, durante muito tempo, eu tenha procurado lugares onde pudesse caber sem gerar muito ruído. Mas viver tentando caber tem um custo.
Aos quase 40, tenho pensado menos em como caber e mais em como assumir o meu lugar. E assumir o próprio lugar não é entrar em todos os ambientes como quem precisa marcar território. Não é falar mais alto nem impor vontades. Não é deixar de ouvir.
Talvez seja exatamente o contrário. É não precisar provar o tempo inteiro que se pertence.
É saber que alguns espaços são nossos porque foram construídos com presença, afeto, trabalho, escolhas e vínculo. E que isso não desaparece toda vez que alguém discorda, se incomoda ou espera outra coisa de nós.
É confiar que o próprio lugar não precisa ser reconquistado a cada conversa.
Isso não significa deixar de se importar. Eu não quero perder a delicadeza de perceber as pessoas, nem usar a maturidade como desculpa para agir sem consideração ou transformar autenticidade em falta de cuidado.
Mas também não quero continuar confundindo cuidado com a obrigação de manter todo mundo confortável, porque isso não é possível. Mais do que isso, não é saudável.
Claro, a maturidade não eliminou a minha insegurança, mas tem me ajudado a não obedecê-la o tempo todo.
Isso muda a forma como eu entro nos lugares, a maneira como sustento minhas decisões. Muda a expectativa de que todas as pessoas precisam se sentir bem comigo para que eu me sinta bem comigo mesma.
Crescer é perceber que o nosso lugar não depende de uma aprovação renovada diariamente. Alguns espaços já são nossos porque estivemos ali de verdade, com presença, com escolhas. Com tudo o que somos, inclusive as partes que nem sempre vão agradar.
Deixar de agradar não é decepcionar, é apenas parar de viver tentando impedir uma decepção que, em algum momento, inevitavelmente vai acontecer.
E entender que, mesmo assim, continuamos sendo dignas de afeto, de vínculo e de pertencimento, sem precisar caber o tempo inteiro.
Apenas ocupando, com um pouco mais de segurança, o lugar que já é nosso.



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