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Sobre guardar a gentileza para casa

24 de ago.
4 min de leitura

Por Dani Aquino





Muitas vezes, a pessoa que a gente mais machuca, é a que a gente mais ama. Na intimidade, falamos para o outro aquilo que não gostaríamos de ouvir, de forma automática. Ao invés de aproximar, nós criamos distâncias.


Ontem, eu derrubei suco de laranja no chão e ouvi: “se fosse eu, você estaria reclamando”.


Logo em seguida, respondi: “claro, sou eu quem limpa!”. E é aí que mora o erro, até porque não limpo sozinha e, pra piorar, esse não é um bom motivo para um desgaste e um barulho, desnecessário. 


Isso me fez refletir sobre algo que já tenho observado há algum tempo: a forma como a gente trata as pessoas. Não necessariamente aquelas de longe, que encontramos na fila do banco, no caixa do supermercado, no elevador ou numa reunião de trabalho. Com essas, na maior parte das vezes, a gente sabe ser gentil. Agradece, pede licença, sorri, espera, controla o tom e escolhe melhor as palavras.


Mas, curiosamente, nem sempre fazemos o mesmo com quem está perto. Com quem mora com a gente, divide a rotina, a casa, as contas, as preocupações, o café da manhã e o silêncio do fim do dia. É justamente quem está ao nosso lado que, muitas vezes, recebe o desgaste, a pressa, a impaciência, a resposta atravessada, o suspiro, a reclamação e a irritação que começou em outro lugar, com outra pessoa, por outro motivo.


Eu tenho tentado olhar para isso em mim. Não porque eu tenha descoberto uma forma perfeita de lidar com as emoções, longe disso, mas porque, aos quase 40, algumas coisas começam a pedir um pouco mais de consciência. Uma delas é perceber que intimidade não pode ser sinônimo de licença.


Existe algo bonito em poder baixar a guarda dentro de casa. Não precisar estar bem o tempo inteiro, poder dizer que o dia foi difícil, chegar cansada, ficar quieta, reclamar, chorar, ter pouca energia. Talvez uma das melhores partes de uma relação segura seja justamente poder existir sem tanta performance. Mas existe uma diferença entre mostrar o cansaço e descarregá-lo, entre dizer “hoje eu não estou bem” e fazer o outro pagar por um dia que ele não viveu, entre poder ser vulnerável e transformar quem está perto em depósito emocional.


Essa diferença nem sempre é fácil de perceber, porque o cansaço parece uma boa justificativa. “Eu estava estressada”, “meu dia foi péssimo”, “estou cheia de coisas na cabeça”, “não tenho paciência para isso agora”. Tudo isso pode ser verdade, mas tenho aprendido que algumas coisas explicam nosso comportamento sem necessariamente justificá-lo. O fato de eu ter tido um dia difícil não significa que alguém precise ter uma noite difícil por minha causa.


Parece óbvio quando a gente reflete sobre isso. Na prática, nem sempre é. Passamos o dia inteiro nos regulando, engolimos uma resposta no trabalho, mantemos a educação diante de alguém inconveniente, respiramos antes de responder um e-mail, somos pacientes com um desconhecido e dizemos “imagina, sem problema” quando, às vezes, teve problema sim. Então chegamos em casa, e talvez seja justamente ali que o corpo entenda que pode relaxar. O problema é quando relaxar vira descontar.


Aos quase 40, tenho tentado criar um pequeno espaço entre aquilo que sinto e aquilo que faço com o que sinto.


Nem sempre consigo. Às vezes, a resposta sai antes, o tom vem mais duro do que deveria e a irritação encontra justamente quem não tinha nada a ver com ela.


E em muitos desses casos, antes mesmo de perceber como me manifesto, ouço: “você está grossinha hoje, né?”.


E amadurecimento está no que acontece depois: perceber, voltar e reconhecer que a reação não foi justa.


Dizer “desculpa, eu estava irritada com outra coisa e descontei em você” não apaga tudo, claro, mas assumir responsabilidade pelas próprias emoções é muito diferente de fazer com que o outro seja responsável por elas. Esse movimento, por menor que pareça, muda o lugar de quem convive com a gente. Em vez de virar alvo, essa pessoa volta a ser companhia.


Somos capazes de oferecer muita delicadeza para pessoas que talvez nunca mais veremos, mas, às vezes, economizamos essa delicadeza justamente com quem escolheu ficar. Porque  existe uma espécie de confiança silenciosa de que aquela pessoa continuará ali, apesar do nosso mau humor, da nossa impaciência, da resposta atravessada, do jeito mais duro de falar.


E é aí que mora um risco. Relações importantes também são feitas e desfeitas, nas pequenas repetições: no jeito como respondemos, na atenção que damos, na forma como olhamos quando o outro fala, na impaciência que virou hábito, na ironia que começou como brincadeira e na sensação de que, com aquela pessoa, não precisamos mais ter tanto cuidado.


Mas talvez precisemos. Não de um cuidado artificial, nem de uma convivência em que todo mundo mede cada palavra e finge bom humor. Isso também seria impossível. Mas lembrar que familiaridade não elimina delicadeza, que intimidade não diminui respeito e que amar alguém não deveria significar oferecer a essa pessoa apenas aquilo que restou da nossa paciência, é fundamental.


Nem tudo o que sentimos precisa imediatamente virar fala, nem toda irritação precisa encontrar um destinatário e nem todo cansaço precisa virar conflito.


Cuidar das relações é muito menos grandioso do que imaginamos. Não acontece apenas nas viagens, nos aniversários, nas declarações ou nas conversas profundas. Às vezes, acontece numa terça-feira qualquer, quando alguém pergunta “como foi seu dia?” e, mesmo cansada, a gente lembra que aquela pessoa não é o nosso dia ruim. É alguém que está ali, ao nosso lado.


Amadurecer também é olhar com um pouco mais de carinho para quem compartilha a vida conosco e tentar não oferecer ao mundo inteiro a nossa melhor educação para deixar, justamente para quem amamos, apenas aquilo que sobrou.

 
 
 

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