Sobre quando a perfeição paralisa
- Sobreviver aos 40
- 6 de jul.
- 4 min de leitura
Por Dani Aquino

Quando começamos esse blog, o primeiro texto foi sobre romper com a ideia de perfeição, e não foi por acaso.
Naquele momento, falar sobre perfeição era também uma forma de justificar, para mim mesma, o início. Era como se eu precisasse dizer em voz alta: “estamos começando, mesmo sem estar perfeito”. Mesmo com medo, com dúvidas. Mesmo com aquela sensação incômoda de que talvez ainda não estivesse bom o suficiente, já que começar algo novo tem disso.
A gente olha para uma ideia com carinho, mas também com desconfiança. Imagina possibilidades, mas logo depois encontra defeitos. Pensa em caminhos, mas se perde tentando escolher o melhor. E, quando percebe, aquilo que poderia ter nascido simples começa a ficar pesado demais.
A perfeição paralisa de um jeito silencioso.
Ela nem sempre aparece como vaidade ou exigência exagerada. Às vezes, ela aparece disfarçada de cuidado, de critério, de responsabilidade, de “só vou colocar no mundo quando estiver melhor”, de “ainda preciso amadurecer essa ideia”, de “talvez não seja tão bom assim”.
E então a gente adia. Adia o texto, o projeto, a conversa, o começo, adia até aquilo que, no fundo, queria muito fazer.
Tenho percebido isso em mim agora e, talvez, seja por isso que esse texto exista. Não porque eu superei completamente essa sensação, mas porque ela está acontecendo. Porque, mesmo depois de escrever sobre romper com a perfeição, mesmo depois de reconhecer que ela pode nos prender, eu ainda me vejo vítima disso em alguns momentos. E aí, eu procrastino.
Mas nem sempre procrastino porque não quero fazer, nem sempre é preguiça, desorganização ou falta de vontade. Às vezes, é medo. Medo de não ser suficiente, de a ideia não ser boa. Medo de parecer simples demais, comum demais, pequena demais.
A gente fala muito sobre autossabotagem como se fosse algo óbvio, quase fácil de identificar. Mas, na prática, ela costuma ser mais sutil. Ela se apresenta como uma análise criteriosa. Como uma revisão necessária. Como uma espera prudente. Só que, muitas vezes, é boicote.
A gente boicota as próprias ideias antes mesmo de elas ganharem forma. Desiste no rascunho e julga antes de tentar. Compara antes de construir, invalida uma vontade porque ela ainda não veio com garantia de sucesso, reconhecimento ou aprovação.
E existe algo curioso nisso, ao mesmo tempo em que a perfeição nos cobra movimento impecável, ela nos impede de mover. Parece contraditório, mas é muito real. A gente quer fazer bem-feito, então não faz; quer entregar algo bonito, então não entrega; quer amadurecer a ideia, então guarda tanto que ela perde o calor; quer estar pronta, então esquece que talvez ninguém comece pronto.
E talvez esse seja um dos grandes enganos da vida adulta, acreditar que maturidade é chegar a um lugar em que tudo estará resolvido antes da gente agir. Aos quase 40, tenho entendido que não é bem assim. A maturidade não elimina automaticamente as inseguranças. Ela não apaga os medos antigos, não silencia todas as dúvidas, não transforma a gente em uma pessoa perfeitamente consciente, segura e organizada emocionalmente.
Seria ótimo, inclusive. Mas a vida real bate na porta o tempo todo. Ela bate enquanto a gente tenta melhorar. Enquanto tenta se organizar. Enquanto tenta cuidar da saúde, da casa, do trabalho, dos vínculos, dos planos, das ideias e do próprio cansaço. Ela bate no meio da nossa intenção de evoluir. No meio do nosso discurso bonito sobre presença, consciência e leveza. E é justamente aí que mora a parte mais honesta desse processo.
A ideia, muitas vezes, é mostrar como estamos melhorando, como estamos aprendendo, como estamos nos tornando mais conscientes, mais maduras, mais inteiras. Mas a vida não acontece só depois da melhora, ela acontece durante.
Durante a tentativa de escrever um texto sobre perfeição enquanto a própria perfeição está sentada do outro lado da mesa, tomando café e dizendo: “será que esse texto está bom mesmo?”
Aos quase 40, eu ainda travo, e muito.
Mas hoje eu consigo perceber quando estou travando. E isso muda alguma coisa. Não resolve tudo, mas muda. Porque antes talvez eu acreditasse imediatamente naquela voz que dizia que eu não era suficiente. Hoje, às vezes, eu consigo escutá-la com um pouco mais de distância. Consigo reconhecer o padrão. Consigo perceber quando o critério virou medo, quando o cuidado virou controle, quando a revisão virou fuga.
E o importante é reconhecer que algumas coisas não nascem porque a gente nunca permite que elas sejam imperfeitas o suficiente para começar. E começar imperfeito ainda é começar. Talvez esse texto seja, de novo, sobre isso. Sobre iniciar mesmo sem garantia, criar mesmo com dúvida, sobre colocar uma ideia no mundo antes que ela esteja blindada contra qualquer julgamento, sobre aceitar que algumas construções só melhoram depois que deixam de ser apenas pensamento.
O primeiro texto deste blog falava sobre romper com a ideia de perfeição e a perfeição paralisa porque promete proteção. Mas, no fundo, ela também nos afasta da vida, da ideia possível. Do projeto possível, da versão possível de nós mesmas hoje.
Viver aos quase 40 seja aprender a fazer esse acordo com mais honestidade e não esperar estar pronta para começar, nem fingir que está tudo resolvido para continuar. Porque melhorar não é deixar de falhar. Às vezes, melhorar é só conseguir perceber a falha enquanto ela acontece.
E, ainda assim, seguir.



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