Sobre o corpo que muda com o tempo
- Sobreviver aos 40
- 13 de mai.
- 5 min de leitura
Por Dani Aquino

Na última semana, minhas conversas com a Manu foram bem objetivas:
- “Você tá tomando que vitamina?”, ela perguntou.
- “Ah, um combo manipulado que a minha doc receitou”, respondi.
E depois de um compartilhamento de coisas que tem nesse tal combo, ela completou:
- Olha, sinto te dizer, mas exercício e alimentação funcionam quando você tem 20 anos. Na nossa idade, precisa do auxílio de “drogas” também. Os hormônios não trabalham mais a favor da coisa toda.
E como se fossemos bem senhoras cansadas, seguimos num papo longo sobre suplementos, whey (algo que odeio), produtos que ajudam a SobreViver, entre outras dicas que ela tem e pode me dar...
Tudo isso se deu pois eu fiz novos exames de sangue e eles ficaram prontos. E eu confesso que alguns resultados mexeram comigo.
O colesterol veio alto. Algo que, pra mim, não chega a ser exatamente uma novidade, porque sempre foi um pouco oscilante. Mas, ainda assim, ver o número ali, no papel, tem um peso diferente. É como se aquilo que a gente sabe, mas vai empurrando com certa negociação interna, de repente ganhasse uma forma concreta.
E, junto com ele, veio a pré-diabetes.
Essa, sim, me atravessou de outro jeito. Não porque eu ache que um exame define uma vida inteira. Não define. Mas porque ele chama para uma conversa que, talvez, eu estivesse adiando. O corpo tem dessas coisas.
Durante muito tempo, a gente acha que ele apenas nos acompanha. Que ele vai junto. Que dá conta. Que responde. Que sustenta os dias, os atrasos, os excessos, as noites mal dormidas, as refeições apressadas, os cafés a mais, os “depois eu vejo isso”, os “segunda eu começo”, os “não é nada”.
E, por muito tempo, ele realmente vai. Vai carregando a rotina, o trabalho, a casa, os vínculos, os planos, as preocupações, os cansaços que a gente nem sempre nomeia. O corpo acorda com a gente, atravessa o dia com a gente, segura muita coisa sem fazer alarde. Até que, em algum momento, ele fala.
Às vezes fala com dor.Às vezes fala com cansaço.Às vezes fala com falta de energia.Às vezes fala em números impressos num exame.
E aí não dá mais para fingir que não ouviu.
Aos quase 40, tenho pensado muito sobre isso: o corpo muda. E talvez o cuidado com ele também precise mudar.
Não no sentido de entrar em uma lógica de punição, controle ou desespero. Não quero transformar um resultado de exame em uma sentença, nem fazer da saúde mais uma cobrança impossível dentro da lista de coisas que uma mulher adulta precisa dar conta. Porque essa lista já é grande.
A questão, pra mim, não é começar uma vida perfeita a partir de agora. Até porque a ideia de perfeição sempre cobrou caro demais. A questão talvez seja outra: começar uma vida mais atenta. Mais honesta. Mais coerente com essa fase.
Existe uma diferença importante entre cuidar do corpo por medo e cuidar do corpo por respeito.
Por muito tempo, falar de corpo esteve ligado a aparência. Ao tamanho da roupa. Ao peso. Ao espelho. À comparação. À tentativa, quase sempre cansativa, de caber em algum padrão. E, nesse caminho, muita gente aprendeu a tratar o corpo como problema. Como algo que precisa ser corrigido. Diminuído. Controlado. Disfarçado.
Mas o corpo não é só imagem. O corpo é o lugar onde a vida acontece.
É nele que a gente sente alegria, susto, fome, sono, ansiedade, prazer, medo, presença, exaustão, alívio. É com ele que a gente abraça, caminha, trabalha, dança na cozinha quando ninguém está vendo, sobe escadas reclamando um pouco, deita no sofá no fim do dia, respira fundo antes de responder uma mensagem difícil.
Esse corpo, que muitas vezes foi tratado com cobrança, é também o corpo que me trouxe até aqui. E talvez seja injusto olhar para ele apenas quando algo sai do controle. Receber esses exames me fez pensar que cuidar do corpo, agora, precisa ser menos sobre promessas grandiosas e mais sobre pequenos acordos possíveis.
Acordos com a alimentação. Com o movimento. Com o sono. Com as pausas. Com os exames de rotina. Com o acompanhamento profissional. Com a forma como eu me observo sem me acusar.
Porque existe uma linha muito delicada entre assumir responsabilidade e entrar em culpa. E eu não quero morar na culpa.
A culpa paralisa. Faz a gente olhar para trás com uma régua dura demais, como se cada escolha tivesse sido uma falha moral. Como se cada comida, cada ausência de exercício, cada fase de desorganização fosse prova de descuido ou fracasso.
Mas a vida não é tão simples assim. A vida tem semanas difíceis, fases de excesso, períodos em que a energia vai embora para outras urgências. Tem trabalho, família, casa, boletos, emoções, lutos pequenos, mudanças internas, demandas que não aparecem em nenhum exame, mas também pesam no corpo.
Ainda assim, reconhecer isso não significa usar a vida como desculpa para não se cuidar. Esse talvez seja o ponto mais importante pra mim agora.
Eu posso olhar para a minha história com gentileza e, ao mesmo tempo, entender que algumas coisas precisam mudar. Uma coisa não anula a outra.
Não preciso me punir para assumir responsabilidade.Não preciso entrar em desespero para levar a sério.Não preciso virar outra pessoa de uma segunda-feira para outra para começar a cuidar melhor de mim.
Talvez eu precise apenas começar.
Com menos resistência. Com menos negociação. Com mais presença.
Aos quase 40, tenho percebido que o corpo não aceita mais tão facilmente alguns combinados antigos. Ele já não responde do mesmo jeito. Já não se recupera com a mesma velocidade. Já não silencia com tanta paciência.
E isso não precisa ser visto como tragédia. Pode ser visto como informação.
O corpo muda porque a vida passa. Porque o tempo existe. Porque amadurecer também é habitar um corpo que tem história. Um corpo que viveu, sustentou, acumulou marcas, atravessou fases, exageros, recomeços e silêncios.
Talvez a maturidade esteja em parar de exigir que ele funcione como antes. E começar a perguntar do que ele precisa agora.
Agora, não quando tudo estiver mais calmo.Agora, não depois de resolver todas as pendências.Agora, não quando sobrar tempo.Agora, com a vida do jeito que ela está.
Porque talvez o cuidado possível não seja aquele cenário ideal, com rotina impecável, marmitas perfeitas, sono regulado, atividade física todos os dias e uma disposição cinematográfica para mudar de vida.
Talvez o cuidado possível seja marcar a consulta. Fazer o retorno. Caminhar um pouco mais. Escolher melhor uma refeição. Dormir meia hora antes.Tomar água. Entender os exames. Pedir orientação. Não abandonar o assunto depois da sensação de derrota inicial.
Assim mesmo, em forma de lista!! Um checklist qye precisa ser visto todos os dias.
Talvez seja menos sobre transformar a vida inteira e mais sobre parar de fugir de si.
Confesso que esses resultados mexeram comigo. Mas não podem me paralisar. Eles precisam me mover. Não com aquela urgência ansiosa de quem quer consertar tudo em uma semana. Mas com a consciência de que esse corpo, que me carrega pelos dias, também precisa ser carregado por mim. Com mais cuidado. Com mais escuta. Com mais respeito.
E talvez seja isso que o tempo esteja tentando ensinar.
Que cuidar do corpo aos quase 40 não é tentar recuperar o corpo de antes.
É aprender a cuidar do corpo de agora.
Sem guerra.
Sem abandono.
Com presença.
E, se necessário, com a Manu me lembrando que whey pode até ser ruim, mas ignorar o corpo costuma ser pior.



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