Sobre construir autoestima com maturidade
- Sobreviver aos 40
- 28 de mai.
- 4 min de leitura
Por Dani Aquino

Durante muito tempo, eu achei que autoestima fosse uma coisa mais fácil de ter na juventude.
Afinal, aos 20 anos, teoricamente, estamos no auge. O corpo responde mais rápido, a pele obedece melhor, a energia parece vir de fábrica e ainda existe aquela ideia, muito vendida, pouco questionada, de que essa é a melhor fase da vida. Na era da internet de hoje, então, isso é cada vez mais forte, o que frustra muitas jovens que olham para as vidas “perfeitas” das redes sociais.
Mas, olhando com um pouco mais de honestidade, talvez aos 20 a gente tenha menos autoestima do que imagina. Ou, pelo menos, eu tinha.
Tinha mais juventude, sim. Mais disponibilidade física, talvez. Mais tempo pela frente, certamente. Mas também tinha mais insegurança, mais comparação, mais necessidade de aprovação. Tinha uma cobrança silenciosa de ser bonita de um jeito específico, interessante de um jeito específico, bem-sucedida de um jeito específico.
Aos 20, muita coisa parecia depender do olhar do outro. Do elogio. Da validação. Da roupa que cabia. Da foto que ficava boa. Do corpo que precisava estar sempre dentro de algum padrão, mesmo quando esse padrão mudava antes da gente conseguir alcançá-lo.
Aos quase 40, muita coisa mudou.
Não necessariamente ficou mais fácil. Aliás, talvez seja justamente o contrário. A vida ganhou camadas. Responsabilidades. Trabalho. Casa. Família. Boletos. Exames. Cansaços que antes pareciam coisa de outra geração. A saúde pede mais atenção, o corpo dá sinais mais claros, a agenda fica mais disputada e a cabeça, às vezes, parece funcionar com muitas abas abertas ao mesmo tempo, quando o sistema operacional insiste em travar.
E ainda assim, com todos esses desafios, eu me sinto melhor agora.
Não porque tudo esteja resolvido. Não porque eu tenha chegado em algum lugar definitivo. Mas porque a relação comigo mesma parece menos barulhenta.
Existe uma calma que chega com o tempo. Não uma calma permanente, dessas que só existem em legenda de rede social. Mas uma calma possível. Um tipo de entendimento que vai sendo construído aos poucos, no meio da vida real, entre uma obrigação e outra, entre um café e um compromisso, entre um incômodo e uma pequena escolha mais consciente.
Aos 40, ou quase 40, a autoestima começa a deixar de ser uma tentativa de parecer alguma coisa. E passa a ser uma tentativa de habitar melhor quem a gente já é.
Isso não significa que eu não pense sobre envelhecer. Eu penso. Talvez não com medo, mas com atenção.
Porque, mesmo quando a gente não tem uma grande preocupação com a idade, lá no fundo existe uma conversa silenciosa com o espelho. Uma percepção de que o corpo muda, o rosto muda, o ritmo muda. Algumas roupas deixam de fazer sentido. Algumas referências também. Certas imagens de nós mesmas ficam antigas, mesmo que a gente tenha carinho por elas.
E não dá para fingir que isso não mexe com a gente. Mexer, mexe. Mas mexe diferente.
A preocupação com corpo e imagem ainda aparece, só que ela não vem mais com a mesma insegurança dos 20 anos. Não vem com aquele desespero de precisar ser aceita imediatamente. Não vem com a urgência de caber em todos os lugares, agradar todos os olhares, corresponder a todas as expectativas.
Hoje, quando a insegurança aparece, eu consigo conversar melhor com ela. Nem sempre com paciência. Nem sempre com sabedoria. Mas com mais repertório.
A maturidade não elimina nossas inseguranças. Ela só nos dá mais condições de não sermos governadas por elas.
E não estamos falando da insegurança que por muitas e muitas vezes me paralisa, quando acho que não sou boa o suficiente para muitas coisas... não... isso já é assunto para outro texto...
E talvez isso seja autoestima.
Não se olhar no espelho todos os dias e amar tudo o que vê. Isso seria bonito, mas também seria um pouco improvável numa vida com TPM, noites mal dormidas, prazos, preocupações e iluminação ruim de provador.
Autoestima, com maturidade, talvez seja não transformar cada incômodo em uma sentença.
É perceber uma mudança no corpo sem concluir que algo deu errado. É envelhecer um pouco sem achar que está perdendo valor. É se cuidar sem se punir. É querer se sentir bonita sem virar refém disso. É entender que vaidade pode ser carinho, desde que não venha acompanhada de violência contra si mesma.
Aos 20, muitas vezes, eu queria ser outra versão de mim. Uma versão mais adequada, mais interessante, mais segura, mais bonita, mais aceita.
Aos quase 40, eu ainda quero melhorar. Mas não a partir da rejeição. Construir autoestima com maturidade é um processo menos estético do que parece.
Aos 40, a gente entende que juventude não é garantia de leveza. Talvez a melhor fase não seja aquela em que o corpo era mais jovem.
Talvez seja aquela em que a gente se trata com menos crueldade.
Aquela em que a gente entende que não precisa disputar com a própria história. Que não precisa competir com a mulher que foi aos 20. Ela existiu. Ela fez o que conseguiu com as ferramentas que tinha. Ela também merece carinho.
Mas eu não quero voltar.
Posso sentir nostalgia de algumas coisas, claro. Da energia, da pele, da despreocupação que eu achava que tinha. Mas não sinto vontade de voltar para a insegurança de viver tentando descobrir se eu era suficiente.
Hoje, mesmo com mais responsabilidades, mais exames para marcar, mais coisas para administrar e menos tempo para simplesmente existir sem pensar em nada, eu me sinto mais inteira.
Não todos os dias.
Não o tempo todo.
Mas de um jeito mais verdadeiro.
Construir autoestima com maturidade talvez seja isso: trocar a busca por aprovação por uma relação mais honesta consigo mesma. É não negar o tempo, mas também não permitir que ele seja tratado como inimigo.
E isso, aos quase 40, tem sido uma forma muito bonita de autoestima.



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