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Sobre não dar conta de tudo



Por Dani Aquino

 


Dia desses, contei na minha rede social que a última semana foi bastante difícil, cheia de desafios e, mais do que isso, carregada daquelas energias que a gente guarda e leva pra casa, deixa pesar no corpo, na mente, na alma (não sei vocês, mas eu acredito em energia, e muito!).

 

Uma amiga me disse “é o Mercúrio, está retrógrado!”, e completou apontando que ainda faltavam cerca de 20 dias pra tudo se normalizar. Logo, pensei: Meus Deus, mais 20 dias não dando conta de tudo nessa vida.

 

A frase veio no susto, mas ela me fez refletir: eu venho tratando “dar conta” como medida de valor. Como se a vida adulta exigisse um estado permanente de eficiência, e, em caso eu não alcance, isso se torna uma falha.

 

Com organização suficiente, disciplina suficiente e boa vontade suficiente, daria para sustentar tudo: trabalho, casa, relações, saúde, presença, autocuidado, projetos, expectativas. Como se fosse possível viver sem escolha. Como se a vida fosse uma planilha.

 

Só que “dar conta de tudo” é uma meta impossível. E metas impossíveis não geram excelência, geram CULPA. Porque o dia sempre termina com a sensação de que ficou faltando alguma coisa e, muitas vezes, o que fica faltando não é tarefa: é presença. É fôlego. É um pedaço de nós que foi consumido tentando manter tudo funcionando ao mesmo tempo.

 

Existe um mecanismo muito comum aí, a gente confunde responsabilidade com absorção. A gente absorve toda e qualquer demanda que aparece, assim, do nada. Ser responsável vira sinônimo de assumir mais um pouco, segurar mais um pouco, resolver mais um pouco. E, sem perceber, a vida se organiza ao redor do “urgente”, aquilo que grita mais alto, que chega primeiro, que cobra resposta imediata. Só que o urgente tem um vício: ele se multiplica. E quando tudo vira urgente, nada é realmente escolhido. A gente só reage.

 

No meio disso, o cansaço não vem apenas do volume do que fazemos, mas do modo como fazemos: em estado de alerta constante. Respondendo rápido, tentando não decepcionar, antecipando problemas, carregando demandas que nem sempre são nossas. Gera um cansaço, e não é apenas físico, é mental e emocional. Ele vem de sustentar a ideia de que precisamos dar conta de tudo para estarmos “em dia” com a vida.

 

Aprender a não dar conta de tudo, então, não é desistência. É ajuste. É maturidade prática.

 

É quando a gente começa a fazer perguntas menos ansiosas e mais honestas: o que é realmente importante agora? o que pode esperar? o que eu estou fazendo por escolha, o que estou fazendo por medo? o que é responsabilidade… e o que é apenas expectativa alheia?

 

Porque há uma diferença grande entre compromisso e excesso. Compromisso tem direção e propósito. Excesso é acúmulo disfarçado de virtude. A “bela” virtude de resolver problemas que nem são nossos, receber um “belo” elogio momentâneo (que em breve será esquecido), e seguir... seguir pra mais uma urgência que descarrega nossa energia sem a gente perceber.

 

Compromisso preserva energia para continuar; excesso transforma qualquer semana em prova de resistência.

 

E o que eu tenho entendido, na prática, é que o “dar conta” que vale a pena não é o que impressiona. É o que se sustenta. Sustentar exige critério. Exige limites. Exige aceitar que algumas coisas vão ficar inacabadas e que isso não define nosso valor. Define apenas nossa realidade.

 

No fim, a pergunta que ajuda não é “como eu dou conta de tudo?”, mas “o que eu quero sustentar sem me perder no caminho?”

 

E, se o Mercúrio está retrógrado, eu não sei. Mas se ele realmente tem mais 20 dias pela frente, eu já decidi: em vez de tentar “dar conta de tudo”, vou dar conta do que importa. E, se sobrar tempo, eu converso com o Mercúrio também,  porque, sinceramente, ele que lute com a própria agenda.

 

 
 
 

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