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Sobre Deus e fé



Por Manu Marques



Estamos na quaresma.


Aquela época do ano em que muita gente promete não comer chocolate, não reclamar da vida e, se possível, virar uma versão premium de si mesma em 40 dias, mas no resto do ano vai seguir falando mal do amiguinho normalmente.


Eu, como boa filha da “tradição católica” que sou, já tentei várias vezes entrar nesse combo. Esse ano mesmo prometi ficar sem cerveja (incluindo as zero álcool que tenho gostado bastante), mas, como boa filha da “tradição de começar na segunda e parar na terça” que sou, parei.


Que Deus me perdoe!


Se o que vale é a intenção, juro que tive as melhores. Até acordar com o Frei Gilson eu cogitei. Mas fato é que a religião, pra mim, tem sido mais busca e menos perfeição.


Durante muito tempo, minha relação com Deus foi atravessada por uma sensação incômoda de culpa. Culpa por não seguir regras que eu discordava. Culpa por não rezar o suficiente. Culpa por não entender a Bíblia direito (“E como entenderia se nunca leu, Manoela?”). Culpa por não sentir aquela fé inabalável que parece tão simples para algumas pessoas. Culpa por não ser “boa o bastante” para os padrões que tem por aí ou que eu mesma criava.


Aos 20, eu queria respostas. Aos 30, eu queria perfeição. Depois dos 40, eu só quero verdade.


E a minha verdade é essa: eu não sei explicar Deus. Mas eu sei sentir.


Hoje, a minha espiritualidade é mais silenciosa. Mais íntima. Mais parecida com conversa de fim de tarde do que com discurso decorado.


Consigo sentir Deus nas pequenas coisas. No sorriso do meu filho. No pôr do sol. Na paz apesar do cansaço ao final de um dia exaustivo.


Eu ainda sinto culpa às vezes? Sinto. Ainda me comparo com quem parece ter uma fé mais firme? Também. Ainda acho que poderia ser e fazer mais? Muito! Mas aprendi uma coisa importante: talvez buscar já seja um sinal de fé.


Porque quem busca, acredita que existe algo. Quem pergunta, acredita que pode haver resposta. Quem insiste, no fundo, espera encontrar.


A quaresma fala muito sobre renúncia. Mas talvez, para mim, ela fale mais sobre reflexão. Sobre pausar, olhar para dentro e perguntar: no que eu realmente acredito?


Eu acredito que Deus não deve estar fazendo uma planilha de desempenho espiritual sobre mim. Eu acredito que Ele entende minhas falhas antes mesmo que eu consiga nomeá-las. E eu acredito que a imperfeição não me afasta do divino, ela me humaniza.

Depois dos 40, eu não quero uma fé perfeita. Quero uma fé honesta.

Uma fé que caiba nos meus dias bons e nos meus dias caóticos. Que sobreviva às minhas dúvidas. Que me ajude a ser melhor, mas longe do impecável.

Amém!

 
 
 

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